Habite-me [28.05.2025]

Habitada 

Espetáculo assistido em 28 de maio de 2025
Texto escrito em 31 de maio de 2025,


Foto: SESC/Divulgação

Quarta-feira, 28 de maio de 2025. Chovia suavemente em Porto Alegre, aquela chuva fina e insistente que molha tudo profundamente sem que percebamos. Fazia frio. Um frio mais frio que os outros frios por ser o primeiro do ano. Me vesti para sair, acomodei os gatos entre as cobertas, deixei um vinho aberto, respirando, para quando eu voltasse e fui ao teatro assistir a um espetáculo dentro da programação do 19o Festival Palco Giratório, promovido pelo SESC/RS.

Nem teatro, nem dança: teatro de formas animadas. Mas nada me tira da cabeça que eu assisti a um dos melhores espetáculos de dança dos últimos tempos. E digo isso com respeito ao teatro, mas puxando a brasa para o meu assado.

Que trabalho corporal! Que abdômen forte essa mulher deve ter! Que presença! Coisas que se passaram na minha cabeça durante os pouco mais de 40 minutos da imersão em presença que foi Habite-me. A presença de Carolina Garcia Marques era tanta que era duas – senão mais –, capaz de animar os corpos dos objetos em cena, a ponto de, por vezes, eu me confundir sobre quem era a atriz e quem era a marionete. Uma confusão que não foi só minha, pois, ao final do espetáculo, pude ouvir algumas pessoas tecendo comentários semelhantes às minhas impressões.

Mas antes do fim, o começo. Havia um texto em áudio do qual eu não me recordo de uma única palavra. Não sei se foi um problema técnico do equipamento de som do teatro ou da narração em si, pois algumas palavras, principalmente as de fins de frases, ficaram ininteligíveis. Não me esforcei para entender o que estava sendo dito. E não sei se o que foi dito me preparou, ainda que inconscientemente, para a experiência que viria a seguir.

Quatro cenas sobre amor, vida e morte. Quatro cenas paradoxalmente brutas e delicadas, embaladas por uma trilha igualmente leve e forte, meio gipsy, meio Amélie, e pontuadas por uma luz que trabalhava, junto à Carolina, na animação do cenário. As máscaras e os figurinos mantinham a coerência do paradoxo: meio românticos, meio grotescos, como peças retiradas de um baú empoeirado esquecido em algum sótão. Esquecido como memórias solitárias de momentos compartilhados. Memórias que se davam a ver em cada cena, apresentando encontros, desencontros, celebrações, despedidas, lutos. E talvez esse seja o ponto em que Habite-me tenha me tocado tanto: minhas memórias são apenas minhas. Ainda que os momentos das quais elas surgiram tenham sido compartilhados, o que eu lembro, como eu lembro, como eu construo essas memórias preenchendo suas lacunas só eu posso lembrar dessa forma. Ainda que agradáveis, as memórias são solitárias. E quando eu morrer, todas elas morrerão comigo. E tem uma certa beleza nisso, nessa finitude que passamos a vida toda ignorando.

Por fim, não satisfeita em dar alma às marionetes, Carolina animou parte do cenário, dançando (eu já disse que, para mim, era um espetáculo de dança?), sozinha, até a morte, simbólica ou real, afinal, é disso que o espetáculo trata: da brevidade da vida, da nossa própria efemeridade, dos modos que nos relacionamos com os outros, com o entorno, com nós mesmos.

Era tudo muito simples. Ou, ao menos, parecia tudo muito simples. As histórias apresentadas em cada cena eram simples. As movimentações da atriz, das marionetes, dos objetos eram simples. Mais uma vez, o paradoxo: o extraordinário se fazendo a partir da execução absurdamente precisa do ordinário. E certamente isso se deve à impressionante habilidade somada à presença de Carolina em manipular as marionetes e os objetos em cena, fazendo parecer simples, suave, terno algo que demanda muita técnica e muito trabalho árduo.

Saí do teatro me perguntando: Habite-me, assim, no imperativo, é um convite? Uma ordem? Um encantamento? Um encantamento, com toda certeza, desses que, ao dizê-lo, se materializa, pois voltei para casa habitada pela profunda beleza do que eu havia assistido, transbordando amor ao pensar nos afetos que tenho por perto. Chegando em casa, vesti uma roupa confortável, servi uma taça de vinho, sentei no sofá, me aconchegando nos gatos, e sorri, agradecida: que sorte a minha ter saído de casa nessa noite de chuva e de frio.


Alyne Rehm
Porto Alegre, maio de 2025.

***

Habite-me
Carolina Garcia Marques (RS)
Gênero: Teatro de Formas Animadas
Duração: 50 minutos
Sinopse: Corpo marionetizado e boneco animado. Face a um mundo pervertido em seu sentido ético, no qual os valores fundantes de nossa natureza humana, entre eles o amor, a compaixão e o respeito pelo mundo e pelo outro parecem corroer-se, a arte ainda é capaz de nos lembrar sobre a brevidade da vida, sobre nossa efêmera passagem neste planeta e sobre os caminhos que escolheremos para percorrer essa jornada.
Ficha Técnica
Atuação e Pesquisa: Carolina Garcia Marques | Direção de Dramaturgia: Paulo Balardim | Bonecos e Máscaras: Emilie Racine | Trilha Sonora Original: Tuur Florizoone | Cenografia: Elcio Rossini | Figurinos: Cris Lisot | Criação de Luz: Renato Machado | Operação de Luz | Luana Pasquimel, David Lippe, Clermont Pithan | Operação de Som: Wilson Neto | Preparação Corporal: Marcia Pinheiro e Laurence Castonguay | Operação de Infláveis: Antonio Maggionni | Realização: Cia 4 Produções e Cie Territoire 80 (Montreal) | Produção Executiva: Líria Cultural | Co-Produção: Cia 4 Produções e Cie Territoire 80

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