Muita água [22.01.2025]
Minha casa não foi, mas eu fui
Espetáculo assistido em 22 de janeiro de 2025![]() |
| Foto: Adriana Marchiori |
Quando começa uma catástrofe? Quando termina?
Quando começa um espetáculo? Quando termina?
Quando se agradece um espetáculo? Quando termina?
Quem agradece?
M u i t o o b r i g a d a!
Não, espera! Eu não deveria agradecer. Eu era público. Minha função era apreciar o espetáculo e aplaudir quem estava em cena ao final do mesmo. E quem estava em cena deveria, por sua vez, em retribuição aos aplausos, agradecer.
Não, espera de novo! Eu não estava em cena? Aquela história não era minha? Não era a minha vida sendo contada ali no palco, na plateia, na sala de ensaio, nas ruas da cidade, na minha rua, no meu prédio que ficou com mais de 1m de água por mais de 1 mês? Mas meu apartamento é no 3o andar. Minha casa não foi atingida, mas eu fui. Quando mesmo que começa e quando termina? Começa muito antes da primeira gota de chuva. Começa muito antes de uma notícia no rádio. Começa muito antes da primeira entrada na sala de ensaio. Começa muito antes, arrisco dizer, de nos apercebermos do começo. Quando nos damos conta, já estamos dentro. E agora? Qual a minha, quais as nossas funções?
Chove, chove, chove. Ouve rádio. Sobe água. Corre, corre, corre. O rádio. Sobe mais. Sai de casa. Mais rádio. Separa roupa, separa comida. Excesso de rádio. Excesso de água. Doa roupa, doa comida. Rádio. Compra bota, compra capa, entra na água. Muita água. Rádio. Para, pensa, sente: chora. Ainda o rádio. Se recupera. Ouve rádio. Faz voluntariado. Para chuva, volta chuva. E mais rádio. Resgata gente, resgata pet. Rádio. O carameeeeelo! Rádio. Os dias passam. A chuva passa. O rádio passa. Não precisa mais.
Já terminou?
Já pode agradecer?
[...]
Quando um sistema colapsa?
Quando um corpo colapsa?
O que fazemos com nossos corpos colapsados por um sistema colapsado pelas águas?
É possível que sigamos imunes ao caos [de fora e de dentro] de uma catástrofe climática?Em alienação, talvez sim. Mas enquanto corpos-sujeitos-sociais, a imunidade não existe. O meu corpo colapsou durante os 50 minutos do espetáculo, assim como durante o primeiro mês da enchente – já terminou? Minha casa não foi atingida, mas eu fui. M e u c o r p o f o i. Durante o espetáculo, me peguei várias e várias vezes tentando me reorganizar na cadeira. Os ombros fechados, a coluna arredondada, os olhos úmidos. Na tentativa de proteger o peito [de dentro e de fora] e de não transbordar, colapsei. Acordei no outro dia com o pescoço duro. Tensão. Não terminou. Reverbera ainda agora, dias depois [do espetáculo], meses depois [da enchente] enquanto escrevo esse texto-agradecimento para uma eco-performance de dança-denúncia.
Terminou?
Agradeço agora?
[...]
... na tentativa de não transbordar...
... falhei.
Falhamos [quase todos]. Transbordamos – [eu, tu, o rio] – [quase todos]... nos intoxicamos: pelo excesso das vozes no rádio, que traziam informações atualizadas a cada instante; pelas águas contaminadas invadindo as casas, expulsando as pessoas que não deveriam estar lá (ai, mello, sério?!); pelos pronunciamentos dos desgovernantes; pelas doações que já não eram mais aceitas; pela romantização da catástrofe contornada pela solidariedade dos civis (mello-mello, leite-leite, que conveniente); pela resistência de um cavalo caramelo; pelos entulhos de restos de vidas se acumulando nas calçadas depois que a água baixou, rápida e eficazmente recolhidos pelo desgoverno, trazendo uma sensação de limpeza, de ordem, de término; e, por fim, pela escuridão.
Terminou?
Agradeceço?
[...]
O que fizemos/fazemos com aquilo que da enchente ficou/fica em nós?
Se andarmos pela cidade, as marcas da água ainda estão nas paredes dos prédios; se procuramos nos informar, famílias seguem em abrigos, cidades seguem destruídas, vidas seguem devastadas; se olharmos para nossos corpos certamente encontraremos marcas (físicas, mentais, emocionais) da experiência da enchente em nós, ainda que não tenhamos consciência delas ou que, tendo, as ignoremos.
O que podemos – se é que podemos – fazer com essas marcas?
Em meio a uma trilha sonora radiofônica-narrativa-informativa-crítica-irônica-sarcástica-histórica-ácida-n e c e s s á r i a, Cibele Sastre, Fabiano Nunes e Ju Vicari fazem dar materialidade às marcas – memórias? – da enchente nos/dos/através de seus corpos, de suas experiências corporais em meio a muito barro, muita lama, MUITA ÁGUA, num movimento de recortar[se] e colar[se] a catástrofe climática vivida por eles, por mim, por nós em 2024, proporcionando a nós, espectadores, alguns instantes para [re]visitarmos o auge da enchente, para pararmos e sentirmos, para vermos de fora o que aconteceu, entendendo que o fora também é dentro, espectadores-atores, e que não haveria como não ser, e, sobretudo, para que não esqueçamos de algo tão recente e, paradoxalmente, tão distante. Experiências, marcas, memórias. Pessoais, particulares, privadas. Coletivas, compartilhadas, públicas.
Já terminou?
Mas quando é mesmo que se agradece?
Se insisto nessas perguntas é porque não, ainda não terminou. E porque desde os primeiros instantes do espetáculo, sentindo meus ombros pesados e meus olhos molhados, quis agradecer aos três eco-performers por não deixarem a catástrofe climática ocorrida no Rio Grande do Sul em maio de 2024 cair no esquecimento, por dizerem-dançarem-denunciarem tudo o que disseram-dançaram-denunciaram, do modo como disseram-dançaram-denunciaram.
Enfim, MUITO OBRIGADA!
***
Duração: 50 minutos
Sinopse: Três artistas de um Porto não muito Alegre desdobram as experiências corporais da maior catástrofe climática do século no RS. Movendo corpos e memórias embarrados, MUITA ÁGUA transcria afetos doloridos em arte, num desdobramento ecopoético de um sistema colapsado pelas águas do descaso.
Ficha Técnica
Criação e performance: Cibele Sastre, Fabiano Nunes e Juliana Vicari | Criação e operação de luz: Carol Zimmer | Técnico de luz: Carlos Azevedo | Produção e operação de áudio: Pedro de Camillis | Pós-produção de som: Phillip Schmiedt | Assessoria de imprensa: Aline Fiabane e Porto Verão Alegre | Texto e locução: Fabiano Nunes | Ilustração e design gráfico: Gabriel Rischbieter | Animações: Lua Marinho | Criação ambientação sonora: Cibele Sastre, Fabiano Nunes e Juliana Vicari



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