Un burrito que me lleve [13.07.2025]

Uma estranha forma de vida

Espetáculo assistido em 13 de julho de 2025
Texto escrito em 23 de julho de 2025


Foto: Jonatan B. Tavares

Não gosto de ler qualquer coisa sobre antes de. Sinopses, críticas, comentários. Gosto de ir desavisada. Cinema, teatro, dança. Literatura também. Prefiro ser pega de surpresa. Para bem e para mal. Assim como aconteceu com um Almodóvar, tempos atrás. Fui lá eu, bem bela, ao cinema numa tarde de domingo, na CCMQ, pronta para assistir ao último Almodóvar. Quando o filme começava a ficar bom, cerca de trinta minutos após o início, os créditos começaram a subir. Ingênua e desavisada, imaginei que fosse parte da proposta. E então começou uma entrevista com o próprio Almodóvar explicando o filme. Me levantei revoltada e saí do cinema. Revoltada não pela curta duração do filme, que era, de fato, um curta-metragem, mas pela audácia do cineasta em tentar me explicar o que eu acabara de assistir sem me dar a chance de formular minhas próprias impressões. É por isso que busco não me informar sobre antes de, para que eu tenha a chance de construir por mim os sentidos daquilo a que assisti; para que eu tenha chance de entender a relação que estabeleci com aquilo a que assisti. Depois sim gosto de ler a sinopse e de saber o que está se dizendo sobre. Depois de, apenas.

Todavia, essa resenha não é sobre Uma estranha forma de vida, o tal curta do Almodóvar, ainda que tome seu nome de empréstimo; é sobre um espetáculo de dança contemporânea, Un burrito que me lleve, do Coletivo Grupelho. Essa introdução toda acerca de não ler nada sobre antes de era para dizer que fui para a Sala Álvaro Moreyra, na noite de domingo, 13 de julho de 2025, com a única informação de que eu assistiria a um espetáculo de dança de um grupo do qual que já havia ouvido falar, mas que não conhecia. Para ser pega de surpresa. Curiosamente, havia nele uma estranha forma de vida.

Na hora da retirada do ingresso, recebemos uma rosa vermelha. Entramos na sala e encontramos cadeiras dispostas em formato de arena, mostrando que o espetáculo poderia ser assistido de todos os ângulos. Também encontramos corpos espalhados pelo chão: animados e inanimados; corpos de intérpretes e corpos de enchimentos. Encontramos, ainda, dois intérpretes unidos por uma grossa corda azul, de costas um para o outro, em diagonal, em duas pontas da cena. Uma intérprete levanta de uma das cadeiras, em meio à plateia, e começa a arrastar os corpos, empilhando-os: animados em uma ponta da cena; inanimados em outra ponta. Os intérpretes unidos pela corda trocam de lugar em corridas vigorosas que levam-na ao limite da tensão, até quem caem. Levantam-se e recomeçam. Levantam-se e recomeçam. Levantam-se e. Até que não levantam mais e são empilhados junto aos outros corpos animados. Começa o jogo.

Este é o ponto alto de Burrito: os intérpretes jogam muito bem entre si, estabelecendo mudanças que reverberam em todo grupo quase que prontamente. Por vezes, é difícil determinar quem propôs a mudança de movimento, pois os demais respondem rapidamente. Por algum tempo, a cena é composta de tarefas e scores, velhos conhecidos da dança contemporânea. Nada de novo, mas com um jogo muito bom entre o grupo.

De repente, um corpo inanimado se anima. Um intérprete que tem a mesma estética dos corpos de enchimento entra em cena. Na verdade, ele sempre esteve nela, soterrado pelos corpos inanimados. A presença dele causa estranhamento, como se ele não devesse estar ali daquela forma, mas também como forma de resistência em ocupar um lugar que talvez não devesse ser seu. Ou como questionamento das margens cada vez mais borradas entre o que é real e o que é falso. É desagradavelmente bom vê-lo em cena, incomodando, destoando, desconfortando: uma estranha forma de vida, como um filtro às avessas, em meio ao ordinário dos outros corpos, surgindo do improvável e atuando com protagonismo. Estranhamente familiar.

Ao longo do espetáculo, os corpos inanimados são abandonados junto à plateia. Talvez eles merecessem um desfecho melhor. Ou não. Quantas coisas que são, ou parecem ser, tão importantes em um dado momento são simplesmente abandonadas em outro? Um corpo animado também é abandonado. O espetáculo segue com mudanças de cena que não parecem estabelecer relação entre si. E precisaria? Elas dizem de um cotidiano comum; dos inícios, meios e fins de um dia, de um ano, de uma vida; das repetições quase involuntárias do dia-a-dia, as quais nem questionamos, apenas executamos. O que não precisaria, talvez, é um certo exagero nas insistências: as cenas se demoram por tempo demais. E o talvez da frase anterior encontra eco no corpo estranho em cena, que causa desconforto. A duração prolongada das cenas também leva para esse lugar, mas passa do ponto. Seguem-se algumas cenas óbvias, cansativas, tanto enquanto dramaturgia como enquanto trabalho corporal, levando o espetáculo, que começou bem, ladeira abaixo, como a própria vida, colidindo com um final desnecessário: não havia necessidade de tirar a plateia de dentro da sala e levá-la, em um cortejo fúnebre, para a rua, em frente ao teatro, momento em as rosas vermelhas recebidas na entrada devem ser jogadas pela plateia na defunta, o único corpo abandonado que, em algum momento, foi resgatado – eu, particularmente, preferia ter trazido a minha rosa para casa.

Ao chegar em casa, recorri ao material de divulgação para ver se as minhas impressões, sobre as quais refleti no caminho de volta, coincidiam com a proposta. Não que precisasse. Apenas por curiosidade. O que encontrei foi uma proposta coerente com a cena: um espetáculo de dança contemporânea de base experimental tomando o corpo como lugar de pesquisa de linguagem, com intensidade física e dramaturgia fragmentada, apresentando o ordinário da vida e da morte. Burrito cumpre muito bem aquilo que se propõe na sinopse. Mas de que modo?

Insistências que passam do ponto, um certo descuido, má finalização são coisas que não se justificam sob a premissa de base experimental. Porque é experimental, tudo pode? Enquanto construção, sim. Mas enquanto cena, enquanto aquilo que é elencado para ser entregue, bem, nem tudo. Se Almodóvar me incomodou por tentar explicar o que eu havia acabado de assistir logo depois do final do curta, o Coletivo Grupelho me incomodou por explicar tudo durante o espetáculo, mesmo que as cenas não fossem miméticas. Claro que sempre há espaço para construção de sentidos, mas quando a coisa está muito dada na cena, as possibilidades dessa construção ficam limitadas. E talvez o limite não seja do trabalho, mas do espectador que o assiste. No caso, talvez a limitação seja minha.

De mais a mais, é muito bom ver corpos disponíveis em cena, que compram a proposta e entram no jogo; é muito bom ver dança contemporânea inteligente, questionadora, provocativa. É muito bom ir desavisada e ser surpreendida.

E aquela estranha forma de vida que tanto prendeu minha atenção durante o espetáculo acabou se misturando aos corpos animados e se perdendo entre eles. Talvez ela merecesse um final tão estranho e perturbador quanto a sua existência – ou um prêmio.


Alyne Rehm
Porto Alegre, julho de 2025.

***

Um burrito que me lleve
Gênero: Dança
Duração: 60 minutos
Sinopse: Um espetáculo de dança contemporânea de base experimental que pesquisa sua linguagem através do corpo. A fiscalidade intensa diante de uma construção dramatúrgica fragmentada escancara o agridoce sabor dos rituais fundamentais da prática humana. O exercício da vida e a fabulação da morte. Uma coreografia de carne que moída se ergue. Primeiro espetáculo que Bruno Cunha, co-fundador do Coletivo Grupelho, assina como diretor.
Ficha técnica
Direção geral: Bruno Cunha | Intérpretes criadores: Alexsander Vidaleti, Bruno Cunha, Li Pereira, Marlah Pritsch, Maria Eduarda Nectoux, Romi Na Ibis e Nazu Ramos | Co-direção: Tuli Serpa | Trilha Sonora Original: Bruno Cunha | Desenho de Luz: João Fraga, Daniel Fetter e Tuli Serpa | Operação de Som: Sofia Vidor | Cenografia: Bruno Cunha | Figurino: Maria Eduarda Nectoux e Marlah Prischt  | Produção: Coletivo Grupelho | Identidade Visual: Nicole Rizzo | Foto: Jonatan Tavares, Liege Ferreira e Diogo Vaz | Vídeo: Fábio Spolti

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