Céu da língua [01.10.2025]
Quando as palavras ganham profundidade
| Gregório Duvivier em O Céu da Lìngua. Foto: Raquel Pellicano |
Excelência não apenas pelo primoroso texto autoral de Gregório, mas também por sua atuação. Eu conhecia o Gregório comediante do Porta dos Fundos e o Gregório jornalista do Greg News e já o admirava por seus textos. Mas vê-lo no palco me permitiu conhecer e admirar um ator, um cantor, um declamador, um escritor, um poeta, em suma, um multiartista encantador.
Excelência pela perfeita harmonia de tudo e de todos que se encontravam em cena. No palco, com cenário minimalista, Gregório brinca com as palavras, acompanhado pelo instrumentista Pedro Aune, que brinca com sons em seu contrabaixo, e pela designer Theodora Duvivier, que brinca com imagens em seu projetor. A interlocução entre ambiente sonoro, projeções, texto e atuação é precisa: os elementos musical e imagético tecem o espetáculo com o elemento textual, e não sob ou sobre ele, compondo a trama da cena.
Teatro, comédia, monólogo, palavra, poesia, música, política. Essas são algumas das palavras-chave que me vem à cabeça quando penso em O Céu da Língua. Desde os primeiros instantes, Gregório declara seu amor à poesia e às palavras. Com graça, leveza e muito humor, ele conduz o espetáculo, apontando como tropeçamos na poesia diariamente, sem que nem percebamos; apontando o quanto ela é presente em nossas vidas, ainda que não a percebamos.
Saí do teatro pensando no meu nome, imaginando uma cena. De repente chego em algum lugar em que alguém pergunta como me chamo. Um bar, por exemplo. A pessoa na entrada do bar pergunta meu nome para anotá-lo na comanda. Respondo que é Aline, com profundidade. Confusa, a pessoa me olha e pede para que eu repita. Aline, com profundidade. Ainda confusa, a pessoa me pergunta se com profundidade é meu sobrenome, ao que eu respondo que não, que é depois do L.
Isso tudo porque Gregório conta que palavras como lágrima e abismo eram grafadas com Y, o qual conferia profundidade a elas. Lagryma. Abysmo. Profundidade gráfica mesmo. Como se o rabinho do Y puxasse elas para baixo, para as profundezas. E não é que parece que puxa? E dizer Aline com profundidade é muito mais divertido do que dizer Aline com Y. Como acadêmica das Letras, com graduação, mestrado e, agora, doutorado na área, posso dizer, com conhecimento de causa, que O Céu da Língua foi a melhor aula de linguística histórica que já tive. E, talvez, uma das melhores sessões de psicanálise que já fiz.
Uma ode à língua, uma declaração de amor à poesia e às palavras, um convite para que nos [re]apaixonemos pela nossa língua-mãe. Apresentando temas como a origem e o significado das palavras, a influência cultural e as mudanças ao longo do tempo no vocabulário e a relação entre poesia e cotidiano, O Céu da língua é uma linda e divertida homenagem à língua portuguesa.
Cheguei em casa meia-noite passada, dormi cerca de três horas a menos do que de costume, acordei sem querer acordar e passei boa parte do dia seguinte ao espetáculo com sono, entre bocejos e satisfação. E faria tudo de novo.
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