Céu da língua [01.10.2025]

Quando as palavras ganham profundidade

Gregório Duvivier em O Céu da Lìngua. Foto: Raquel Pellicano

Quarta-feira, 01 de outubro de 2025, às 22h30, horário em que habitualmente já estou dormindo, estava eu, entre bocejos e expectativas, esperando um espetáculo começar. Em sua segunda vinda a Porto Alegre este ano, Gregório Duvivier lotou quatro sessões do Salão de Atos da PUCRS, que possui cerca de 1.600 lugares, com o monólogo O Céu da Língua. Lotação que talvez se explique pela fama do artista, mas que se justifica pela excelência do trabalho.

Excelência não apenas pelo primoroso texto autoral de Gregório, mas também por sua atuação. Eu conhecia o Gregório comediante do Porta dos Fundos e o Gregório jornalista do Greg News e já o admirava por seus textos. Mas vê-lo no palco me permitiu conhecer e admirar um ator, um cantor, um declamador, um escritor, um poeta, em suma, um multiartista encantador.

Excelência pela perfeita harmonia de tudo e de todos que se encontravam em cena. No palco, com cenário minimalista, Gregório brinca com as palavras, acompanhado pelo instrumentista Pedro Aune, que brinca com sons em seu contrabaixo, e pela designer Theodora Duvivier, que brinca com imagens em seu projetor. A interlocução entre ambiente sonoro, projeções, texto e atuação é precisa: os elementos musical e imagético tecem o espetáculo com o elemento textual, e não sob ou sobre ele, compondo a trama da cena.

Teatro, comédia, monólogo, palavra, poesia, música, política. Essas são algumas das palavras-chave que me vem à cabeça quando penso em O Céu da Língua. Desde os primeiros instantes, Gregório declara seu amor à poesia e às palavras. Com graça, leveza e muito humor, ele conduz o espetáculo, apontando como tropeçamos na poesia diariamente, sem que nem percebamos; apontando o quanto ela é presente em nossas vidas, ainda que não a percebamos.

Saí do teatro pensando no meu nome, imaginando uma cena. De repente chego em algum lugar em que alguém pergunta como me chamo. Um bar, por exemplo. A pessoa na entrada do bar pergunta meu nome para anotá-lo na comanda. Respondo que é Aline, com profundidade. Confusa, a pessoa me olha e pede para que eu repita. Aline, com profundidade. Ainda confusa, a pessoa me pergunta se com profundidade é meu sobrenome, ao que eu respondo que não, que é depois do L.

Isso tudo porque Gregório conta que palavras como lágrima e abismo eram grafadas com Y, o qual conferia profundidade a elas. Lagryma. Abysmo. Profundidade gráfica mesmo. Como se o rabinho do Y puxasse elas para baixo, para as profundezas. E não é que parece que puxa? E dizer Aline com profundidade é muito mais divertido do que dizer Aline com Y. Como acadêmica das Letras, com graduação, mestrado e, agora, doutorado na área, posso dizer, com conhecimento de causa, que O Céu da Língua foi a melhor aula de linguística histórica que já tive. E, talvez, uma das melhores sessões de psicanálise que já fiz.

Uma ode à língua, uma declaração de amor à poesia e às palavras, um convite para que nos [re]apaixonemos pela nossa língua-mãe. Apresentando temas como a origem e o significado das palavras, a influência cultural e as mudanças ao longo do tempo no vocabulário e a relação entre poesia e cotidiano, O Céu da língua é uma linda e divertida homenagem à língua portuguesa.

Cheguei em casa meia-noite passada, dormi cerca de três horas a menos do que de costume, acordei sem querer acordar e passei boa parte do dia seguinte ao espetáculo com sono, entre bocejos e satisfação. E faria tudo de novo.

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O Céu da Língua 
Gênero: Teatro | Duração: 80 minutos
Ficha Técnica 
Interpretação e Texto: Gregorio Duvivier | Direção e Dramaturgia: Luciana Paes | Assistência de Direção e projeções: Theodora Duvivier | Direção Musical e Execução da Trilha: Pedro Aune | Cenografia: Dina Salem Levy | Assistente de Cenografia: Alice Cruz | Figurino: Elisa Faulhaber e Brunella Provvidente | Iluminação: Ana Luzia de Simoni | Diretor Técnico: Lelê Siqueira | Técnico de Som e Microfonista: Dugg Mont | Diretor de Palco: Reynaldo Thomaz | Visagismo: Vanessa Andrea | Fotos de Divulgação: Demian Jacob | Fotos de cena: Joana Calejo Pires, Priscila Prade e Raquel Pellicano | Design Gráfico Publicação: Estúdio M-CAU – Maria Cau Levy e Ana David | Identidade Visual Divulgação: Laercio Lopo | Assessoria de Imprensa: Pombo Correio | Marketing Digital: Renato Passos | Administração: Fernando Padilha e Lucas Lentini | Assistente de Produção: João Byington de Faria e Dani Mattos | Produção Executiva: Lucas Lentini | Direção de Produção: Clarissa Rockenbach e Fernando Padilha | Produção: Pad Rok Produções Culturais

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