Partes do corpo | Fragmento I: Joelhos [2021]

Fragilidade Constitutiva

Fotos: Miguel Sisto Jr. Edição: Alyne Rehm


Texto originalmente escrito em algum momento de 2021,
quando os ombros não eram um problema muito maior

Querida Alyne,

Vamos começar sem rodeios, até porque rodeios não são próprios da nossa natureza, anatomicamente falando. Então, assim, logo de cara, te pedimos desculpas. Desculpas por sermos tão limitados e, com isso, causarmos medos, inseguranças e dores.

É da nossa natureza também o desgaste. Aquilo que nos constitui, mais cedo ou mais tarde, gasta, desgasta, afina, rompe, seca, resseca, esfarela, quebra.

Sim, estamos justificando tudo com a natureza da nossa constituição, mas não somos vítimas do destino. E, pensando bem, não somos tão culpados assim. Quiçá, possamos ser vítimas das circunstâncias.

A partir do momento em que sempre estivemos ao teu dispor, que uso fizeste de nós? Pensando bem, será que não és tu que nos deve desculpas por tantas vezes ter-nos exigido demais, nos exposto demais, nos levado ao limite demais?

Achávamos que precisávamos te pedir desculpas por termos te causado algum mal, mas... Não foste tu quem nos causou mal, quem nos deixou assim, tão sensíveis, frágeis, quase miseráveis? Ou será que sempre fomos assim?

Estamos confusos. Cansados e confusos. Cansados, às vezes quase odiamos o lugar onde estamos, o espaço que ocupamos, as funções limitadas que nos foram atribuídas... Confusos, nos sentimos tão medianos, medíocres, mas também tão necessários. E talvez por isso esses pequenos ódios cotidianos: porque somos assim tão medíocres e, ainda assim, tão necessários.

Ademais, não estamos sozinhos nessa. Não somos assim tão independentes a ponto de sermos responsáveis por tudo que conosco acontece. O que seria das partes sem as outras partes?

E, com isso, de carta-desculpas nos parece que passamos à carta-acusação. Mas não, não era isso que queríamos. Não nos entenda mal, por favor. Só queríamos te permitir saber que sabemos da nossa parte nesse todo. Inacabados que somos, nós, tu, o todo, sempre em construção, ou, no nosso caso, em contínua desconstrução, inacabamos, por ora, por aqui, essa carta-confissão, admitindo que não suportamos mais esse peso todo e nos sentimos, em parte, culpados. 

e pedimos desculpas, por fim.

Com carinho,

Teus joelhos


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